Reminiscências – texto

Em 02.02.2017   Arquivado em PESSOAL

 

O texto de hoje é uma espécie de crônica.  Ele foi escrito quando eu tinha 15 anos e publicado, inclusive, no livro da Academia Juvenil de Letras de minha cidade (Pouso Alegre – MG).

Tenho um carinho especial ele. Espero que vocês gostem.

 

A Perfídia das Estrelas

Ao Crepúsculo, o Sol e a Lua já se encontravam na rusga diária.

O Sol, muito pomposo, esbravejava e dizia ser mais importante do que a Lua, pois iluminava o dia – e trazia calor, ânimo, brincadeiras, verão e muita piscina.  Era o responsável pela alegria incontida e pela vermelhidão às maçãs do rosto. Já a Lua, em divergência com o Sol, era mais humilde. Apenas defendia-se; afinal, era certo que o Sol alumiava o dia, mas era ela, A Lua, quem trazia cor à noite, clareava a penumbra e inspirava os casais apaixonadas que, sob ela, recitavam poemas e cantavam o amor.

Sem a Lua, a rotação era impossível.  Sol sem Lua não existe – tal era a explicação da Lua. O Sol, já meio embaraçado – mas ainda imponente – deu as costas à Lua no instante em que a noite chegou.

A Lua pairava no céu, acanhada e triste – não queria motim com o Sol que, como a maioria dos machos, era teimoso. Mesmo a Lua estando certa, ele não daria o braço à torcer. E o Sol, escondido, pensava na Lua: mulheres! Difíceis de lidar… convencem facilmente. Mulheres são fodas, são fadas, são astutas. São mulheres.

Os dois – Sol e Lua – eram contraste. Nunca juntos. Um era do dia; a outra da noite. Mas como já dizia a lei: os opostos se atraem. Logo, na sombra, Sol e Lua amavam-se.

Contos de fada, sempre cheios de complicações… de dragões, de bruxas e duendes: as estrelas, percebendo o que acontecia entre o Sol e a Lua, invejaram.  Foram ao Sol e contaram calúnias: disseram que a Lua fora à Marte, onde se encontravam os líderes espaciais, e pediu – lhes o exílio do Sol. Este, ao ouvir tudo aquilo, enfureceu-se. Já para a Lua, as estrelas, mentindo, disseram que o Sol estava amando outro astro – um corpo celeste mais encorpado do que a Lua. Então esta, toda melancólica, melindrou – se com o Sol.

Conversa cortada. Nunca mais se falaram… até que, num santo dia, um bom samaritano – um eclipse solar daqueles bem raros – fez com que os dois se encontrassem. Assim,  o Sol e Lua escureceram, brigaram, mas duvidaram, por fim, da sinceridade das estrelas, descobrindo que elas ludibriaram a ambos vergonhosamente. O Sol e a Lua, então, uniram-se. E, até hoje, zombam da deslealdade das estrelas.

O dragão do casamento: a falta de dinheiro; a bruxa: a vizinha Joana. Esta era a história que Carlos contava à esposa quando boatos de estrelas inimigas sopraram aos ouvidos de Helena, companheira de matrimônio, que o marido  estava traindo-a com Joana. “A Grama do vizinho é sempre mais verde” dizem as estrelas até hoje. E dizem mais… dizem que mulheres, tantas vezes fodas e fadas … são ingênuas. E que maridos, de crônicas tão boas, publicam livros em fim de carreira.