Resenha: A Casa Das Lembranças Perdidas (Kate Morton)

Em 10.09.2017   Arquivado em LITERATURA

Sinopse:

“Em 1924, o belo, rebelde e misterioso poeta Robbie Hunter se mata com um tiro durante uma das festas que decretam os últimos suspiros da poderosa aristocracia inglesa. As irmãs Hannah e Emmeline Hartford vêem tudo mas nada podem fazer para evitar o suicídio, que coloca um ponto final num doloroso triângulo amoroso formado por elas e Hunter. A tragédia vai separá-las para sempre e o tempo encobrirá tudo com o véu do esquecimento. Mas um filme sobre os Hartford vem resgatar todos os detalhes de um passado cheio de segredos que permanecem guardados na memória de Grace Bradley, aos 98 anos, única testemunha ainda viva do drama vivido por uma família e das profundas transformações vividas pela sociedade da época.”

A Casa Das Lembranças Perdidas é o romance de estréia de uma das minhas autoras preferidas: Kate Morton. Eu o li há algum tempo, mas, por um descuido, ainda não o resenhei por aqui.

Kate Morton – como de costume –  tece, nesta obra,  duas tramas paralelas: uma se passa nos loucos 20,  e tem como ponto central a aristocrática família Hartford – em especial, as irmãs Hannah e Emmeline Hartford. A outra trama se passa nos dias atuais e tem como ponto central a nonagenária Grace Bradley.

Grace, além de personagem, é também a narradora dessa história. Quando era apenas uma menina, ela trabalhou como criada para a notória família na mansão de Riverton. Cresceu ao lado de Hannah  e foi, por muitos anos, a sua camareira pessoal. Portanto, ela  vivenciou todos os dramas  dos Hartford e soube, também, de todos os seus sórdidos segredos. Grace estava presente, inclusive, na fatídica noite de 1924:  quando, durante uma festa na mansão de Riverton, o famoso e rebelde poeta Robbie Hunter se suicidou.

Nos dias atuais, Grace- a nossa narradora e personagem –  é apenas uma sombra da menina que costumava ser. Aos 90 anos, ela é uma mulher que já viveu muito e teve muito tempo. Farta da velhice, ela está pronta para as despedidas. Uma nova fase a espera. E  ela sabe que esta não demorará a vir.

 Grace, no entanto, apenas se ressente de uma coisa: ela não quer levar para o túmulo o mais sombrio segredo que permeou a sua convivência com a família Hartford, anos atrás.

De fato, com a proximidade da estréia de um novo filme sobre a vida do poeta Robbie Hunter e a noite de seu suicídio, lembranças se intensificam na memória da personagem. Não é à toa que os produtores do filme andam dando muito atenção a ela (cartas chegam pelo correio: convites para dar entrevistas e assistir às filmagens). Grace Bradley é a única pessoa ainda viva que pode contar o que realmente aconteceu naquela noite. Seria, agora,  o momento de dizer a verdade?

O que eu achei do livro:  

Acho que já falei isto no blog muitas vezes – e não, eu não me canso de repetir: Kate Morton é uma escritora genial.

Nenhuma obra dela sequer – nenhuma mesmo – fica abaixo da média. Todas são excelentes.

A Casa Das Lembranças Perdidas foi o terceiro livro escrito por Morton que eu li (e o quarto a ser resenhado no blog).  Ele, no entanto, foi o romance de estréia da autora, o primeiro livro dela a ser publicado – e, rapidamente, seguido por O Jardim Secreto da Eliza, As Horas Distantes, A Guardiã dos Segredos do Amor (ainda sem resenha por aqui) e A Casa do Lago.

Kate Morton começou muito bem. Esta obra é, simplesmente, de tirar o fôlego . Os personagens, como sempre, são perfeitamente bem desenvolvidos e profundos. São como pessoas reais – complexos; cada um com sua particularidade.

Kate escreve sobre mulheres e sobre a influência que as convenções sociais exercem sobre elas. Os segredos são os efetivos protagonistas da história. Eles fazem com que o enrendo se movimente, página por página.

A marca da narrativa da escritora é o paralelismo histórico de tramas. Em todas as suas obras – sem exceção – parte da história acontece no passado para, então, se complementar com a outra parte, que acontece no presente.

Apesar de isto estar presente em TODAS as obras – e estas serem semelhantes entre si – nenhuma história é repetitiva. Toda história é única. Toda história é completa. Toda história é incrível.

Em a A Casa Das Lembranças Perdidas, o que mais me chamou atenção foi a congruência histórica. O período entre guerras – a famosa Belle Époque dos loucos anos 20 – foi muito bem delineado. Morton soube descrever quais eram os papéis esperados do sexo feminino nessa época, bem como o processo de ruptura destes.

Os Anos 20 foram um momento de efervescência e revolução social.  Os antigos valores caíam por terra – e levavam consigo os seus respectivos rótulos e papéis sociais.  A aristocracia, acostumada com a sua posição de privilégio nesse contexto, tenta lutar contra a derrocada.  Mas é em vão. E, assim, ela dá os seus últimos suspiros.

Hannah Hartford é a  persona que demonstra essa ruptura. Ela é uma mulher com sonhos. Ela deseja trabalhar e conhecer o mundo. Ela quer aventura. Não, ela não se vê apenas no papel de esposa e mãe. Igual a um inseto em uma grande teia (a sociedade aristocrática), Hannah se debate. Deseja uma fuga. Mas, assim como o inseto, ela só se embola e se prende ainda mais.

Emmeline é uma romântica. A irmã extrovertida.  A clássica mulher dos anos 20 – que bebe, fuma e dança o Chalerston. Assim como Hannah, ela é uma sonhadora. Sonha com coisas diferentes, mas ainda é uma sonhadora. E, da mesma forma que irmã, ela não consegue suplantar o ideal esperado pela sociedade.  Ela também é um inseto em uma teia de aranha.

Robbie Hunter é um cáustico poeta. Atormentado pelos horrores da guerra, tudo que lhe resta é a poesia. E o desejo de fugir de suas lembranças. Mas, de uma forma ou de outra, a teia de aranha prende a todos

 Grace, os olhos e os ouvidos dessa história, é a criada. Mais que apenas isso, ela é a mulher que fez a si mesma. Na derrocada dos valores, foi ela quem conseguiu se reinventar. Ela é a voz da razão em meio ao caos.

Em suma, A Casa Das Lembranças Perdidas é um livro rico. Mordaz.  E um forte pretendente para as referências bibliográficas de minha monografia. Em um tom corrosivo, ele deslumbra a todos. Uma das melhores leituras já feitas por mim, com toda a certeza.

A nota que dou para ele é, portanto, excelente (5/6).

Em breve, sairá resenha sobre A Guardiã dos Segredos Do Amor, o último livro que li de Morton. Já posso adiantar que ele não perde em nada para os outros. É incrível, do mesmo jeitinho.

Nome do livro:  A Casa Das Lembranças Perdidas;

Autora: Kate Morton;

Editora: Rocco;

Páginas: 536.